Voltar aos artigos

Não é só suar e hipertrofiar: por que movimento saudável é muito mais do que academia

Corpo 10 03/08/2026 Dr. Charles Genehr
Imagem do artigo

Existe uma imagem bastante popular de exercício:

Uma academia.

Pesos.

Músculos.

Suor.

Batimentos acelerados.

Uma camiseta molhada.

Um relógio mostrando calorias queimadas.

Para algumas pessoas, isso representa exatamente o que significa estar fisicamente ativo.

Mas existe um problema:

o corpo humano não foi feito apenas para levantar pesos e correr em esteiras.

Movimento é muito maior do que isso.

Caminhar até o trabalho é movimento.

Subir escadas é movimento.

Brincar com os filhos é movimento.

Dançar é movimento.

Carregar compras é movimento.

Pedalar é movimento.

Nadar é movimento.

Praticar yoga é movimento.

Fazer Tai Chi é movimento.

Até mesmo interromper longos períodos sentado para caminhar alguns minutos faz parte de um comportamento fisicamente mais ativo.

A própria Organização Mundial da Saúde define atividade física de maneira ampla, incluindo movimentos relacionados a trabalho, transporte, tarefas domésticas, lazer, esportes e exercício planejado.

Exercício e atividade física não são exatamente a mesma coisa

Essa diferença é importante.

Atividade física é qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que aumenta o gasto energético.

Exercício é uma forma de atividade física planejada, estruturada e repetitiva, geralmente com objetivo de melhorar ou manter determinada capacidade física.

Portanto:

Uma pessoa pode não frequentar academia e ainda ser bastante ativa.

E alguém pode treinar uma hora por dia e permanecer sentado durante o restante do tempo.

Essa distinção muda completamente a maneira de pensar sobre saúde.

O problema do sedentarismo moderno

O corpo humano vive atualmente em um ambiente muito diferente daquele para o qual sua fisiologia evoluiu.

Elevadores.

Carros.

Escadas rolantes.

Delivery.

Trabalho sentado.

Reuniões virtuais.

Computadores.

Celulares.

Entretenimento digital.

Não é necessário romantizar o passado para reconhecer uma consequência:

é possível passar grande parte do dia quase sem movimentar o corpo.

Por isso, não basta pensar:

“Eu treino uma hora.”

Também devemos perguntar:

“O que faço nas outras 23 horas?”

Movimento ao longo do dia

Uma das mensagens importantes das recomendações contemporâneas é que todo movimento conta.

A OMS afirma que qualquer quantidade de atividade física é melhor do que nenhuma e recomenda reduzir o comportamento sedentário.

Isso pode ser muito útil para quem acredita que precisa fazer um treino perfeito para obter benefício.

Não precisa.

Você pode começar com:

Essas atividades não substituem necessariamente treinamento estruturado quando ele é indicado.

Mas contribuem para uma vida mais ativa.

E a hipertrofia?

A hipertrofia é importante.

O treinamento de força pode aumentar massa muscular, força e capacidade funcional.

Com o envelhecimento, preservar massa e força muscular torna-se especialmente importante.

Portanto, não devemos criar uma falsa oposição entre:

musculação

e

movimento natural.

Ambos podem ser úteis.

O problema é considerar hipertrofia como o único objetivo.

Uma pessoa pode ser musculosa e apresentar baixa capacidade aeróbica.

Outra pode correr muito bem, mas ter pouca força.

Outra pode ter força e condicionamento, mas pouca mobilidade.

Outra pode apresentar bom condicionamento, mas equilíbrio ruim.

A saúde física possui várias dimensões.

Um corpo saudável precisa de capacidades diferentes

Podemos pensar em pelo menos cinco componentes:

1. Força

Capacidade de produzir força contra uma resistência.

2. Capacidade cardiorrespiratória

Capacidade de sustentar atividades que exigem transporte e utilização de oxigênio.

3. Mobilidade

Capacidade de movimentar articulações adequadamente.

4. Equilíbrio e coordenação

Fundamentais para desempenho e, especialmente com o envelhecimento, prevenção de quedas.

5. Capacidade funcional

A habilidade de usar todas essas capacidades na vida real.

Uma pessoa saudável não precisa ser atleta.

Precisa ser funcional.

E onde entra a pele?

A pele também participa dessa história.

Durante o exercício, ocorre aumento da temperatura corporal.

A pele participa da termorregulação.

O fluxo sanguíneo cutâneo pode aumentar.

As glândulas sudoríparas são ativadas.

O suor evapora e ajuda a dissipar calor.

Tudo isso é fisiologia.

Mas a pele também pode sofrer com o ambiente.

Imagine um treino ao ar livre:

O exercício pode ser excelente.

O contexto pode ser ruim para a pele.

Por isso, a prática deve ser adaptada.

Suar não significa desintoxicar a pele

Essa é uma ideia muito difundida.

“Vou suar para eliminar toxinas.”

Não é uma boa maneira de explicar a fisiologia.

O organismo possui órgãos especializados na eliminação e transformação de diversas substâncias, especialmente fígado e rins.

O suor tem como principal função a termorregulação.

Ele contém água e eletrólitos, além de outras substâncias em pequenas quantidades.

Portanto:

suar não é sinônimo de “desintoxicar”.

Isso não diminui a importância fisiológica do suor.

Significa apenas que precisamos descrevê-lo corretamente.

Suor pode piorar problemas de pele?

Pode.

Principalmente quando permanece por muito tempo associado a:

Isso pode contribuir para irritação, brotoeja, foliculite ou agravamento de algumas condições.

A solução não é parar de suar.

É cuidar da pele antes, durante e depois do exercício.

O banho depois do treino é obrigatório?

Não existe uma regra universal.

Mas, para pessoas que apresentam acne corporal, foliculite, dermatite ou irritação relacionada ao suor, pode ser interessante remover suor e resíduos da pele após o exercício.

A escolha do sabonete também importa.

Limpeza excessiva pode prejudicar a barreira cutânea.

Portanto, “quanto mais lavar, melhor” também não é uma boa regra.

E o sol?

Aqui existe uma questão especialmente importante para quem pratica atividade física ao ar livre.

Caminhada, corrida, ciclismo, futebol, tênis, trilhas e outros esportes podem aumentar significativamente a exposição solar.

A atividade física não protege contra os efeitos da radiação ultravioleta.

Por isso, quem se exercita ao ar livre deve considerar:

Isso é especialmente importante para pessoas com histórico de câncer de pele ou alto risco de fotoexposição.

A cultura do exercício pode ser excessiva

Existe outro problema contemporâneo.

A ideia de que o exercício precisa ser sempre mais intenso.

Mais peso.

Mais velocidade.

Mais distância.

Mais repetições.

Mais suor.

Mais frequência.

Mais esforço.

Mas o organismo precisa de recuperação.

Treinamento é um estímulo.

A adaptação acontece durante o processo de recuperação.

Portanto:

treinar é importante; recuperar também é.

O corpo não é uma máquina de calorias

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes.

O organismo não funciona como uma calculadora:

“Comi 500 calorias → preciso gastar 500 calorias.”

A atividade física influencia muito mais do que o gasto energético.

Ela pode alterar:

Por isso, usar apenas calorias para avaliar exercício é reduzir um fenômeno biológico complexo a um único número.

Movimento e saúde mental

O exercício também pode modificar a relação da pessoa com o próprio corpo.

Isso pode ser especialmente importante na dermatologia.

Doenças de pele visíveis podem gerar:

A atividade física pode funcionar como uma forma de reconexão corporal.

Em vez de olhar para o corpo apenas através da aparência:

o corpo volta a ser percebido como algo que funciona.

Eu consigo caminhar.

Eu consigo levantar peso.

Eu consigo dançar.

Eu consigo nadar.

Eu consigo respirar.

Eu consigo melhorar.

Essa mudança pode ser muito poderosa.

E as práticas orientais?

Tai Chi, Qigong e outras práticas mostram que movimento não precisa necessariamente ser sinônimo de exaustão.

Algumas dessas práticas combinam:

Estudos modernos mostram benefícios dessas modalidades para diferentes aspectos da capacidade física, particularmente em populações mais velhas.

Isso amplia nossa definição de exercício.

A pergunta certa não é “academia ou nada”

É:

“Como posso construir uma vida em que meu corpo se movimente regularmente?”

Talvez a resposta inclua:

Isso pode ser muito mais sustentável do que tentar fazer cinco treinos extenuantes por semana.

Movimento é comportamento, não evento

Uma mudança conceitual importante é deixar de pensar:

“Hoje fiz exercício.”

e começar a pensar:

“Minha vida é fisicamente ativa.”

São coisas diferentes.

Uma pessoa que passa dez horas sentada e faz uma hora de academia tem um padrão.

Outra pessoa que treina três vezes por semana, caminha diariamente, sobe escadas e interrompe longos períodos sentado tem outro.

Ambas podem cumprir determinada meta de exercício.

Mas seus padrões de movimento são diferentes.

E para a pele?

A pele provavelmente se beneficia mais de uma vida globalmente saudável do que de um “treino para a pele”.

Isso significa integrar:

movimento + sono + alimentação + proteção solar + não fumar + controle metabólico + cuidados dermatológicos.

É uma abordagem muito mais coerente.

Conclusão

Não é preciso suar muito para que o movimento tenha valor.

Não é preciso hipertrofiar.

Não é preciso correr uma maratona.

Não é preciso passar horas na academia.

É preciso encontrar maneiras sustentáveis de movimentar o corpo.

A atividade física regular é uma das estratégias mais importantes para a saúde ao longo da vida. A OMS recomenda pelo menos 150–300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou equivalente, associada a fortalecimento muscular em pelo menos dois dias por semana para adultos.

Mas a recomendação pode ser o ponto de partida, não o ponto final.

O objetivo é construir uma vida em que:

sentar seja uma parte da vida — e não a vida inteira.

E, para quem pensa em dermatologia, vale lembrar:

uma pele saudável não existe separada de um organismo saudável.

O que a ciência já sabe

O que ainda precisamos entender

Ainda não sabemos exatamente qual combinação de modalidades produz os maiores benefícios para cada doença dermatológica.

Na maioria dos casos, portanto, não existe “o melhor exercício para a pele”.

Existe o melhor padrão de movimento para aquela pessoa, naquele momento da vida.